O
Ensino de Dança na Escola: Conversando com professores
Wagner
Rosa
wagnerrosa@sercomtel.com.br
É do conhecimento de muitos
(senso comum) que a dança passou a fazer parte do Regimento da Secretaria
Municipal de Educação de São Paulo como linguagem artística diferenciada desde
o ano de 1992. Medidas acerca do ensino da arte em suas diversas linguagens,
incluindo-se aí a dança, também vêm sendo adotadas por outros Municípios e até
por Estados em todo o território nacional. Mesmo atendendo o alcance das leis,
uma efetiva concretização dessas inovações necessita de algum diálogo acerca da
execução/articulação da dança em nível escolar e, principalmente, a respeito de
quem tem competência para trabalhar com os alunos os saberes que ela envolve.
Não se trata aqui de abordar as competências do ensino técnico específico da
dança, em suas várias linguagens (ballet clássico, moderno, flamenco, capoeira,
entre outros). Nas escolas técnicas, observando-se a predominância do ensino do
ballet clássico em suas diversas vertentes (russa, americana, inglesa, entre
outras), as habilidades necessárias não se formam exteriores ao meio, pois em
essência implicam um processo de transmissão cultural. Portanto, o profissional
de dança está mais habilitado a ensinar a técnica de dança, seja em que
linguagem for.
Trata-se de discutir a dança como disciplina em situação de ensino na escola
formal, presente continuadamente em todas as etapas da formação do aluno. Com o
ensino da dança, busca-se redimensionar as possibilidades e capacidades do
corpo e contribuir para o autoconhecimento do aluno (leia-se do ser humano) e
sua inserção nos contextos sociais. Busca-se, também, preparar este aluno para
conviver numa sociedade que exige cada vez mais habilidades específicas que
visam ao mercado de trabalho. Pelo ensino da dança, é possível contribuir no
sentido de capacitá-lo (o aluno) a enfrentar os processos corporativos, que
imprimem certa uniformização, sem que este perca a sua criatividade e,
principalmente, a sua individualidade.
UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA
HISTÓRIA DA DANÇA
Desde a Antigüidade, a
humanidade apresentava em seu cotidiano a expressão corporal por meio da dança,
utilizando-a em suas manifestações sociais. Cada cultura apropriou-se de seu
conteúdo nas mais diferentes áreas, como a Arte, a Música e a Pintura. Dentre
elas, a dança absorveu a maior parte dessa transferência, considerando a sua
relevância nas sociedades, seja como expressão artística, seja como objeto de
caráter místico (cultos religiosos, tempos remotos ou atuais) voltado aos
deuses, seja ainda como simples entretenimento. O Renascimento cultural dos
séculos XV e XVI desencadeou diversas mudanças no âmbito das artes, da cultura,
da política e da religião. Nesse contexto, a dança sofreu profundas alterações:
inicialmente começou a ter um caráter social, passando a fazer parte dos
costumes da nobreza em festas, apenas como entretenimento e recreação e
apresentada também em grandes espetáculos teatrais. A dança social
transformou-se, tornando possível o desenvolvimento das danças populares. Em
sua evolução, a dança continuamente possibilitou ao ser humano retratar seus
anseios em busca de autoconhecimento e felicidade, aprimorando os gestos
expressados (CAVASIN, 2003).
A partir do século XIX surgem duas vertentes acerca da formalização do
aprendizado da dança: a moderna (que surgia com o prenúncio da Dança Criativa,
ou Dança/Educação), e a acadêmica tradicional (a Dança/Arte ou espetáculo).
Tais vertentes demandam dos professores competências distintas para o ato de
ensinar. A nova tendência da dança converge para o movimento humano expressivo
e, assim, o ensino da dança moderna passa, gradativamente, a integrar o
currículo escolar (NANNI, 1995).
A DANÇA NA ESCOLA
Marques (1997, p.21) salienta a
preocupação dos educadores e legisladores brasileiros, desde a década de 1990,
em “pelo menos mencionar a dança em seus trabalhos e programas”. Desde então,
detecta-se com alguma freqüência a inclusão da dança em programas de
congressos, simpósios e encontros, tanto na área de Artes quanto de Educação
Física. Esta inclusão acontece também em várias universidades e instituições de
ensino no país, que vêm promovendo cursos de especialização e/ou mestrado em
dança e/ou ensino de dança, tais como a Universidade de Campinas - SP (UNICAMP),
Universidade Federal de Viçosas - MG (UFV) e a Universidade Federal da Bahia –
BA (UFBA). No entanto, Marques (1997) identifica em nosso país alguns
desentendimentos no campo de conhecimento da dança: em situação escolar, qual
área de ensino é mais capacitada para o ensino da dança? Artes ou Educação
Física? Ou esta competência estaria vinculada a uma disciplina exclusivamente
dedicada à dança? Ou, ainda, será que o ensino de dança deveria ser executado
informalmente pela sociedade em geral? Pois, se por um lado, no Brasil, a dança
se apresenta como um elemento de domínio público (tornando-o um país mais
democrático, peculiar, vibrante e corporal), por outro lado tem-se excluído a
possibilidade de estudarmos dança com maior profundidade, amplitude e clareza
(e com menor risco de lesões corporais). Ou seja, ao relegar a aprendizagem da
dança à informalidade, mesmo sendo o Brasil um país "dançante",
tem-se alijado a dança da escola.
QUEM DEVE ENSINAR A DANÇA NA
ESCOLA?
Ao se tratar de dança na escola
formal, surgem questionamentos acerca de sua identidade e caráter. Assim, para
uma abordagem coerente do tema, compreende-se a necessidade de identificar
primeiramente em qual área de conhecimento o ensino da dança está inserido. A
dança é um exercício físico ou um sistema de comunicação e de expressão? Seu
aprendizado sería apenas um meio (para apreensão de outros conhecimentos) ou um
fim?
Circunstancialmente, uma dualidade cartesiana entre exercício físico e processo
artístico reflete o senso comum nos entendimentos relativos à dança. Esta
premissa “retalha” o indivíduo, sendo tão válida quanto apresentar um corpo sem
cabeça ou vice-versa. Não podemos conceber uma mente sem corpo ou um corpo sem
mente; os dois não apenas coexistem, eles formam um elemento único, e é sob
esta perspectiva que necessitamos trabalhar. Contudo, observando as
especificidades de seu aprendizado (da dança), cumpre-nos tecer algumas
considerações a respeito de quem estaria habilitado a ensiná-la.
Verderi (2007, p.1) afirma que a “Educação Física é uma área do conhecimento
diretamente relacionada com a corporeidade do educando, ou seja, com o
movimento humano consciente e sua capacidade de movimentação”, com a
preocupação acerca do estudo do que simboliza e também da materialização deste
movimento corporal no espaço, destacando a relevância da cientificidade deste
estudo. Para esta autora, “nossa conduta motora nos revela aspectos biológicos
e culturais que são determinantes na evolução do corpo e da mente” (p.1). De
acordo com Verderi (2007, p.1), A bibliografia da dança sugere que “estudando
os movimentos do homem, estaremos estudando o próprio homem”. Com esse
entendimento, e refletindo a respeito da dança na escola, analogicamente
traçamos uma aproximação entre o estudo do movimento e o movimento corporal dos
alunos.
O movimento humano é dotado de significados (elaborado de forma consciente ou
não) e, quando executado, passa a expressar uma linguagem corporal
(intencionalmente ou não).
A área da Educação física abarca sistematicamente a tríade de conhecimentos -
anatomia-fisiologia-cinesiologia -, que evidencia uma busca por compreender o
corpo humano e o seu movimento no espaço, em seus aspectos concretos. Porém,
este corpo que se movimenta no espaço, expressa emoções e comunica-se,
manifestando-se nas mais distintas formas. Nesse sentido, o profissional da
área de Ciências Humanas, principalmente o professor de Artes, não estaria mais
credenciado a ensinar a dança na escola? E os conhecimentos técnicos, seriam
transmitidos por quem?
Nessa mesma linha de pensamento, há ainda a necessidade de refletir acerca da
questão da supremacia da técnica em relação à expressão própria no movimento.
Fiamoncini (2003) afirma que a criatividade e a expressividade tendem a
diluir-se diante do excesso de técnicas provocado pela busca do desempenho
físico e do virtuosismo na dança. Desta forma, ficam à margem o pensar, os
anseios e os sentimentos das pessoas, o que pode gerar inclusive um afastamento
destes indivíduos com relação ao ensino da dança. E quem estaria apto a ensinar
os conhecimentos acerca da(s) técnica(s) específica(s) da dança e seus
contextos históricos? O bacharel ou o licenciado em dança?
Optando por um ou outro, ainda estaríamos dando ênfase a uma parte do
desenvolvimento do aluno em detrimento de outras, educando isoladamente o
corpo, ou o intelecto, de forma desconexa. A pura técnica ou a investigação da
comunicação e da expressão sem conhecimentos mais abrangentes sobre o corpo e
vice-versa. Verderi (2007, p.1) aponta para a necessidade de promover a
observação dos corpos em movimento, possibilitando ao aluno participar da
construção do conhecimento de si mesmo e de seus colegas. Ainda destaca a
necessidade de levar em consideração a opinião do seu aluno, e suas percepções,
promovendo “uma ação educativa libertadora”, ao propiciar que este aluno venha
a “descobrir-se como sujeito de sua própria história e não um objeto dela”.
A autora faz essa afirmação idealizando uma nova Educação Física. Mas
questiona-se aqui qual é a formação que visa a preparar o professor para uma
ação pedagógica que abranja a complexidade dos elementos biológicos, técnicos e
relacionais (sociais), no sentido de assegurar ao aluno bem-estar físico e
mental. Ainda, qual a formação que possibilitaria ao professor criar condições
para o desenvolvimento de procedimentos corporais de maior complexidade que
permitam representar os fatos, conceitos, procedimentos, valores e atitudes
captados da vida em sociedade. (VERDERI, 2007 p.1).
Para finalizar, é possível argumentar que um ensino de dança crítico e
transformador, que trace relações multifacetadas entre o indivíduo, a escola, a
arte e a sociedade contemporânea, seja benéfico aos alunos e, também, aos
processos educacionais como um todo.
Ao constatar que o ensino da dança na escola pode proporcionar ao aluno uma
ampliação de sua visão de totalidade e interdependência (o indivíduo e suas
inter-relações com e na sociedade), dando a ele novas possibilidades para a
busca do novo, proporcionando-lhe ainda a valorização do sentir, do pensar e do
agir, cabe-nos questionar racionalmente quem é o profissional habilitado para
aplicar estes conhecimentos. O professor de Educação Física, de Educação
Artística, ou o professor de Dança, especificamente? E os professores formados
no ensino médio em magistério, estariam aptos a trabalhar a dança com as
crianças do ensino fundamental?
Ao invés de elaborar alguma consideração conclusiva, ficam aqui estes
questionamentos acerca do ensino da dança. Refletir é preciso.