terça-feira, 16 de outubro de 2012

O Ensino da Dança na Escola


O Ensino de Dança na Escola: Conversando com professores


Wagner Rosa
wagnerrosa@sercomtel.com.br


É do conhecimento de muitos (senso comum) que a dança passou a fazer parte do Regimento da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo como linguagem artística diferenciada desde o ano de 1992. Medidas acerca do ensino da arte em suas diversas linguagens, incluindo-se aí a dança, também vêm sendo adotadas por outros Municípios e até por Estados em todo o território nacional. Mesmo atendendo o alcance das leis, uma efetiva concretização dessas inovações necessita de algum diálogo acerca da execução/articulação da dança em nível escolar e, principalmente, a respeito de quem tem competência para trabalhar com os alunos os saberes que ela envolve.
Não se trata aqui de abordar as competências do ensino técnico específico da dança, em suas várias linguagens (ballet clássico, moderno, flamenco, capoeira, entre outros). Nas escolas técnicas, observando-se a predominância do ensino do ballet clássico em suas diversas vertentes (russa, americana, inglesa, entre outras), as habilidades necessárias não se formam exteriores ao meio, pois em essência implicam um processo de transmissão cultural. Portanto, o profissional de dança está mais habilitado a ensinar a técnica de dança, seja em que linguagem for.
Trata-se de discutir a dança como disciplina em situação de ensino na escola formal, presente continuadamente em todas as etapas da formação do aluno. Com o ensino da dança, busca-se redimensionar as possibilidades e capacidades do corpo e contribuir para o autoconhecimento do aluno (leia-se do ser humano) e sua inserção nos contextos sociais. Busca-se, também, preparar este aluno para conviver numa sociedade que exige cada vez mais habilidades específicas que visam ao mercado de trabalho. Pelo ensino da dança, é possível contribuir no sentido de capacitá-lo (o aluno) a enfrentar os processos corporativos, que imprimem certa uniformização, sem que este perca a sua criatividade e, principalmente, a sua individualidade.
UMA BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DA HISTÓRIA DA DANÇA
Desde a Antigüidade, a humanidade apresentava em seu cotidiano a expressão corporal por meio da dança, utilizando-a em suas manifestações sociais. Cada cultura apropriou-se de seu conteúdo nas mais diferentes áreas, como a Arte, a Música e a Pintura. Dentre elas, a dança absorveu a maior parte dessa transferência, considerando a sua relevância nas sociedades, seja como expressão artística, seja como objeto de caráter místico (cultos religiosos, tempos remotos ou atuais) voltado aos deuses, seja ainda como simples entretenimento. O Renascimento cultural dos séculos XV e XVI desencadeou diversas mudanças no âmbito das artes, da cultura, da política e da religião. Nesse contexto, a dança sofreu profundas alterações: inicialmente começou a ter um caráter social, passando a fazer parte dos costumes da nobreza em festas, apenas como entretenimento e recreação e apresentada também em grandes espetáculos teatrais. A dança social transformou-se, tornando possível o desenvolvimento das danças populares. Em sua evolução, a dança continuamente possibilitou ao ser humano retratar seus anseios em busca de autoconhecimento e felicidade, aprimorando os gestos expressados (CAVASIN, 2003). 
A partir do século XIX surgem duas vertentes acerca da formalização do aprendizado da dança: a moderna (que surgia com o prenúncio da Dança Criativa, ou Dança/Educação), e a acadêmica tradicional (a Dança/Arte ou espetáculo). Tais vertentes demandam dos professores competências distintas para o ato de ensinar. A nova tendência da dança converge para o movimento humano expressivo e, assim, o ensino da dança moderna passa, gradativamente, a integrar o currículo escolar (NANNI, 1995).
A DANÇA NA ESCOLA
Marques (1997, p.21) salienta a preocupação dos educadores e legisladores brasileiros, desde a década de 1990, em “pelo menos mencionar a dança em seus trabalhos e programas”. Desde então, detecta-se com alguma freqüência a inclusão da dança em programas de congressos, simpósios e encontros, tanto na área de Artes quanto de Educação Física. Esta inclusão acontece também em várias universidades e instituições de ensino no país, que vêm promovendo cursos de especialização e/ou mestrado em dança e/ou ensino de dança, tais como a Universidade de Campinas - SP (UNICAMP), Universidade Federal de Viçosas - MG (UFV) e a Universidade Federal da Bahia – BA (UFBA). No entanto, Marques (1997) identifica em nosso país alguns desentendimentos no campo de conhecimento da dança: em situação escolar, qual área de ensino é mais capacitada para o ensino da dança? Artes ou Educação Física? Ou esta competência estaria vinculada a uma disciplina exclusivamente dedicada à dança? Ou, ainda, será que o ensino de dança deveria ser executado informalmente pela sociedade em geral? Pois, se por um lado, no Brasil, a dança se apresenta como um elemento de domínio público (tornando-o um país mais democrático, peculiar, vibrante e corporal), por outro lado tem-se excluído a possibilidade de estudarmos dança com maior profundidade, amplitude e clareza (e com menor risco de lesões corporais). Ou seja, ao relegar a aprendizagem da dança à informalidade, mesmo sendo o Brasil um país "dançante", tem-se alijado a dança da escola.
QUEM DEVE ENSINAR A DANÇA NA ESCOLA?
Ao se tratar de dança na escola formal, surgem questionamentos acerca de sua identidade e caráter. Assim, para uma abordagem coerente do tema, compreende-se a necessidade de identificar primeiramente em qual área de conhecimento o ensino da dança está inserido. A dança é um exercício físico ou um sistema de comunicação e de expressão? Seu aprendizado sería apenas um meio (para apreensão de outros conhecimentos) ou um fim?
Circunstancialmente, uma dualidade cartesiana entre exercício físico e processo artístico reflete o senso comum nos entendimentos relativos à dança. Esta premissa “retalha” o indivíduo, sendo tão válida quanto apresentar um corpo sem cabeça ou vice-versa. Não podemos conceber uma mente sem corpo ou um corpo sem mente; os dois não apenas coexistem, eles formam um elemento único, e é sob esta perspectiva que necessitamos trabalhar. Contudo, observando as especificidades de seu aprendizado (da dança), cumpre-nos tecer algumas considerações a respeito de quem estaria habilitado a ensiná-la.
Verderi (2007, p.1) afirma que a “Educação Física é uma área do conhecimento diretamente relacionada com a corporeidade do educando, ou seja, com o movimento humano consciente e sua capacidade de movimentação”, com a preocupação acerca do estudo do que simboliza e também da materialização deste movimento corporal no espaço, destacando a relevância da cientificidade deste estudo. Para esta autora, “nossa conduta motora nos revela aspectos biológicos e culturais que são determinantes na evolução do corpo e da mente” (p.1). De acordo com Verderi (2007, p.1), A bibliografia da dança sugere que “estudando os movimentos do homem, estaremos estudando o próprio homem”. Com esse entendimento, e refletindo a respeito da dança na escola, analogicamente traçamos uma aproximação entre o estudo do movimento e o movimento corporal dos alunos.
O movimento humano é dotado de significados (elaborado de forma consciente ou não) e, quando executado, passa a expressar uma linguagem corporal (intencionalmente ou não).
A área da Educação física abarca sistematicamente a tríade de conhecimentos - anatomia-fisiologia-cinesiologia -, que evidencia uma busca por compreender o corpo humano e o seu movimento no espaço, em seus aspectos concretos. Porém, este corpo que se movimenta no espaço, expressa emoções e comunica-se, manifestando-se nas mais distintas formas. Nesse sentido, o profissional da área de Ciências Humanas, principalmente o professor de Artes, não estaria mais credenciado a ensinar a dança na escola? E os conhecimentos técnicos, seriam transmitidos por quem?
Nessa mesma linha de pensamento, há ainda a necessidade de refletir acerca da questão da supremacia da técnica em relação à expressão própria no movimento. Fiamoncini (2003) afirma que a criatividade e a expressividade tendem a diluir-se diante do excesso de técnicas provocado pela busca do desempenho físico e do virtuosismo na dança. Desta forma, ficam à margem o pensar, os anseios e os sentimentos das pessoas, o que pode gerar inclusive um afastamento destes indivíduos com relação ao ensino da dança. E quem estaria apto a ensinar os conhecimentos acerca da(s) técnica(s) específica(s) da dança e seus contextos históricos? O bacharel  ou o licenciado em dança?
Optando por um ou outro, ainda estaríamos dando ênfase a uma parte do desenvolvimento do aluno em detrimento de outras, educando isoladamente o corpo, ou o intelecto, de forma desconexa. A pura técnica ou a investigação da comunicação e da expressão sem conhecimentos mais abrangentes sobre o corpo e vice-versa. Verderi (2007, p.1) aponta para a necessidade de promover a observação dos corpos em movimento, possibilitando ao aluno participar da construção do conhecimento de si mesmo e de seus colegas. Ainda destaca a necessidade de levar em consideração a opinião do seu aluno, e suas percepções, promovendo “uma ação educativa libertadora”, ao propiciar que este aluno venha a “descobrir-se como sujeito de sua própria história e não um objeto dela”.
A autora faz essa afirmação idealizando uma nova Educação Física. Mas questiona-se aqui qual é a formação que visa a preparar o professor para uma ação pedagógica que abranja a complexidade dos elementos biológicos, técnicos e relacionais (sociais), no sentido de assegurar ao aluno bem-estar físico e mental. Ainda, qual a formação que possibilitaria ao professor criar condições para o desenvolvimento de procedimentos corporais de maior complexidade que permitam representar os fatos, conceitos, procedimentos, valores e atitudes captados da vida em sociedade. (VERDERI, 2007 p.1).
Para finalizar, é possível argumentar que um ensino de dança crítico e transformador, que trace relações multifacetadas entre o indivíduo, a escola, a arte e a sociedade contemporânea, seja benéfico aos alunos e, também, aos processos educacionais como um todo.
Ao constatar que o ensino da dança na escola pode proporcionar ao aluno uma ampliação de sua visão de totalidade e interdependência (o indivíduo e suas inter-relações com e na sociedade), dando a ele novas possibilidades para a busca do novo, proporcionando-lhe ainda a valorização do sentir, do pensar e do agir, cabe-nos questionar racionalmente quem é o profissional habilitado para aplicar estes conhecimentos. O professor de Educação Física, de Educação Artística, ou o professor de Dança, especificamente? E os professores formados no ensino médio em magistério, estariam aptos a trabalhar a dança com as crianças do ensino fundamental?
Ao invés de elaborar alguma consideração conclusiva, ficam aqui estes questionamentos acerca do ensino da dança. Refletir é preciso.

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